domingo, 2 de janeiro de 2011
Mudanças
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
Cinzas da manhã
Eu gosto das manhãs cinzas e esfumaçadas. Como as de hoje. Fico quietinha dentro de mim, procurando fora do corpo um pedacinho de luz. É gostoso buscar palavras que signifiquem um sentimento que não sei o nome. E será que ele existe? Às vezes acho que existem sentimentos que não têm nome. Como o vapor quente que se apossa do meu ventre e sobe ao coração.
A minha janela é pequena. É de lá que vejo os passarinhos e as antenas dos outros prédios confundindo as paisagens. Dá saudade do mar, mas não das águas azuis e transparentes, e sim do oceano branco da ressaca, igual à colcha da cama, outro leito para navegar. Ainda não sei bem porque as manhãs se parecem com as águas, porque as antenas se entrelaçam com os passarinhos, mas sei que as cinzas enferrujadas do meu coração me queimam o ventre. Hoje acordei com vontades de domingo.
As ruas ficam tão longe de mim, não me levam a lugar algum. Sou mais ansiosa quando penso em não ser tão ansiosa, ergo construções fiéis às minhas projeções, todas em mim, todas rascunho. Os pinheiros, as amendoeiras, os coqueiros da minha janela estão acizentados. Meus olhos turvos, foscos. Como se minha pele fosse outra pele, como se minha voz fosse outra voz. Minhas vontades de domingo são transparentes, quase metálicas. Hoje estou vazia e a falta de mim, dentro de mim, me conforta, porque sei que toda mulher tem em si o desejo conflitante de uma solidão inversa: proteger-se.
As manhãs metálicas têm gosto de saudade. É tão forte, é tão gritante a vontade de saber das pessoas. Saber que aquele senhor do ponto do ônibus vai ser aquele senhor do ponto do ônibus. Sempre. Mas por que está ali? Para onde vai? E a moça que vende salgadinhos? Nunca comprei uma coxinha que fosse, um risole de frango, mas sempre a procuro, sempre a encontro, e meu coração ganha um acalanto toda vez que vou trabalhar e vejo o senhor do ponto de ônibus e a moça dos salgados. Em dias coloridos ou cinzas. São pessoas que são parte de mim e nem sabem disso. Porque sou um pouco todo mundo, tem Carmens que existem fora de mim e vêm me buscar nos pequenos gestos sem cor, mas que têm vida. Eu vivo nas pessoas anônimas. Eu gosto de me ter nos outros, de ler quem são, de escrever quem sabe? Porque minha alma cigana, meu nomadismo afetivo, meu sofrimento do amor, são restos do meu coração ferido, mas vivo, que erra, que faz besteira, que falha, que não se permite mais.
Hoje acordei mesmo sem ter dormido. Sonhei e fui tudo, fui menos, fui mais do que sou. A cama vazia com lençóis bagunçados, travesseiros dobrados, cheiros que não voltam. Memórias que ficam. Cinzas da manhã.
terça-feira, 7 de setembro de 2010
Louça empilhada
Os pratos sujos empilhados na pia, as taças manchadas sobre a mesa da sala. Silêncio. Tudo foi uma confusão de ontem. O torcicolo que me acompanha. Mal consigo abrir os olhos, porque as persianas mal ficaram fechadas. O fiapo de luz à procura do carpete. Meus cabelos espalhados sobre as almofadas, minha cabeça rodopiando no escuro da confusão, porque sobrou-me hoje. Restos de uma menina num apartamento vazio de amanhãs, esses dias intermináveis.
As náuseas que me visitaram pela manhã, não houve remédio que curasse. Chá de boldo aos baldes, mas a culpa da ressaca é pior do que a ressaca. E não cabe às taças de vinho me ensinarem qualquer lição, porque a raiva de mim mesma desvia-me da razão, então culpo o telefone, porque não estava sem som, pois esqueci de modificar a campainha, por isso então ele ligou. E eu atendi.
Não queria vê-lo, penso
Desta vez não me aprontei. Fiquei sem maquiagem, sem perfume. Camisola e calcinha. Não queria mais ser quem ele sempre soube quem fui, mas sim ser quem me tornei depois de me apaixonar. A paixão transforma a mulher e comigo não foi diferente. Mas hoje há outro que me deseja, que diz que me ama, mas ainda não sou esta que ele pensa ver, sou um intervalo entre a falta de amor e o excesso de zelo.
Quando ele chegou, garrafa de vinho à mão, eu já o esperava com as taças postas. Sem festa. Um beijo no rosto. Frio. Minhas maçãs murcharam. Mas bebemos, rimos e conversamos, mesmo quando eu já percebia que não havia mais sentido, porque meu tesão era da nossa história, do que vivemos e não do que fizemos de nós, do que nos tornamos. Mais bebida e mais comida, a última sede da fome que fomos. Fiz amor mas não amava mais. E meu pescoço dói, agora, por um motivo. Por isso, sorri das confusões do tempo e pensei: há muita louça para lavar.
terça-feira, 17 de agosto de 2010
Cores da tua cor
De todas tardes
Peles envernizadas de sol
Entre
Tantas tintas rabisco de luz
Cortes da mesma cor
Clarões sob pálpebras
Enquanto
Teu gesto pequeno
Meus outros olhares
Serena ao me devorares
Respiro perfumes
Ares
Caminhas em calçadas
Antigas
Somos
Pedaços de rua
Cirandas novas como cantigas
E
Da tua voz baixa e tímida
Do embaraço dos teus sons
Teu olhar é repouso da manhã
Assim
Teus
Temas
E tons
É do teu silêncio que gosto
Estamos
Entre o intervalo do teu
E o meu espaço
terça-feira, 10 de agosto de 2010
Outras de mim
domingo, 11 de julho de 2010
A última vez que te vi
E fui ao terraço acender meu penúltimo cigarro. E você subiu com sua violência costumeira, marcando com força cada degrau das escadas da casa. E eu procurava os fósforos nos bolsos da calça. E a noite estava clara. E a porta caiu sobre o chão do terraço, você voltando a me xingar e me expulsar da tua vida. Meu choro burro, minha tristeza lenta. E você a me estapear a cara com suas palavras afiadas e covardes. Meus tragos não traziam fumaça, traziam lembranças. Teus gritos não me traziam dor. Os degraus da casa são os degraus da casa. Tua escada é outra.
E desci.
Tiveste raiva quando disse que te amava. Minha voz rouca e amarela inundou o quarto. Afoguei-me. Seus pés grossos me raspando as coxas, me expulsando da cama. Meu susto ao ver que eu te amava. Meu susto ao ver que eu te amava, mas você não. Meu susto ao ver que eu te amava, mas você não e eu não me importar. Meu susto ao ver que eu te amava, mas você não, eu não me importar, mas você, sim, e me xingar, me bater com berros e me castigar com suas mãos e dentes. Minha vontade de mulher ao descer ladeira abaixo e me sentir vulnerável, depois do susto em te amar com toda minha força - e te odiar com toda minha fraqueza. É aí que finjo me saber menos para ser tua.
Tiveste mais raiva quando gargalhei nervosa de seus sussurros de prazer, ao referir-se a mim como a outra, ao pensar na outra para pensar em mim, pois és mais homem comigo, sei, sabes, porque és mais dela quando estás em meus braços, exausto, pequenino, indefeso, mas inteiro. És meu. E me senti a mulher mais amada do mundo: tua.
quinta-feira, 20 de maio de 2010
Águas passadas
Inicio discussões comigo mesma, sempre sentada à beira do sofá, acendendo um cigarro seguido de outro, para não perder o raciocínio do erro, para não ganhar a preguiça das conclusões. Respiro forte para ouvir o coração. Penso forte, para silenciar meu medo. Insisto em equilibrar-me entre mim e minha sombra, não há luz que conduza meu corpo esquecido. Meu corpo ausente. Não corrijo o quadro torto na parede.
Desato a procurar-me no meio das pessoas. Fumaças da rua e dos carros. Do meu cigarro aceso pela luz que esqueceu meu corpo. Pairo sob sombras, entre mim meu próprio equilíbrio, sou preguiçosa e não consigo mais escrever. Continuo a andar. Minha imagem é uma confusão de cabeças e queria sentir sem culpa. Queria não sentir sem culpa. Queria esconder-me dentro de mim e fazer da ausência do meu corpo meu refúgio. O mundo não pertence a mim nem eu. Quem me tem além do que vivi?
Deixo a água do chuveiro massagear o couro cabeludo, meus cabelos, cortinas. Descanso o rosto no antebraço, apoiado acima da torneira. O som da água estalando no chão, o gesto da água deslizando pelo ralo, a pressa da água em lavar meu rosto, o palco de minhas emoções. Não há madeixas suficientes para cobrir minhas maçãs quentes desse mesmo rosto triste e borrado: águas passadas.
Pois assim me vejo. Discurso sobre tudo, mas não consigo mais escrever. O coração surdo, a respiração forte e a cabeça confusa com imagens sem planos. Ou planos sem imagens. Pois, assim, não me vejo. E não consigo mais escrever.






